A voz das mulheres que mandam no marketing brasileiro
O mCMOs chega como plataforma editorial e de comunidade em um momento em que executivas dominam 53% dos cargos de CMO nas Fortune 500
O mCMOs chega como plataforma editorial e de comunidade em um momento em que executivas dominam 53% dos cargos de CMO nas Fortune 500

Em meados de 2024, aconteceu algo historicamente inédito no mundo corporativo, pela primeira vez, mulheres ultrapassaram a marca de 50% de representatividade entre os Chief Marketing Officers das empresas Fortune 500. Chegaram a 53%, segundo estudo da Spencer Stuart. Nenhuma outra função do C-Level chegou perto disso — CEOs ainda estão abaixo de 15%, CIOs e CTOs não passam de 25%.
É nesse contexto que surge o mCMOs — um portal editorial com a ambição de se tornar a principal plataforma de conteúdo e comunidade sobre liderança e sobre o marketing liderado por mulheres do Brasil. A proposta é a de amplificar vozes, fomentar conhecimento e trocas de alto valor ao conectar o ecossistema de CMOs, diretoras, heads de growth e/ou receita e fundadoras. O mCMOs foi fundado pela executiva Camila Besseler (CEO no mCMOs e CMO no Grupo Taking) e head Mirle Ferraz (CMO no mCMOs e head de Marketing no Grupo Taking) e, além disso, também conta com Taciana Serafím (Diretora de comunidade no mCMOs e fundadora da CRO Brasil) e Mafe Espinona (Editora chefe no mCMOs e CEO na Eco PR) como parte da equipe diretiva.
“"Mulheres são 55,8% das identidades de usuários de redes sociais no Brasil. Se a maioria da audiência digital é feminina, a liderança de marketing também pode refletir essa realidade."”
O Brasil ocupa a 10ª posição global em proporção de mulheres em cargos de liderança (37%), segundo o relatório Women in Business 2024 da Grant Thornton. É um número que impressiona até o contexto aparecer. Esse mesmo 37% representa uma queda de 2 pontos percentuais em relação ao recorde anterior, alinhando o país à tendência global de retrocesso.
O funil corporativo brasileiro é implacável. Mulheres são maioria nos estágios e na entrada. Chegam a 39,3% dos cargos gerenciais (IBGE). Mas caem para 29% nas diretorias industriais e apenas 16% dos assentos em conselhos de administração de empresas abertas. A presidência desses conselhos é feminina em apenas 6,2% dos casos.
E então vem a ferida que nenhum cargo resolve sozinho: mesmo chegando à diretoria, as executivas brasileiras ganham em média 25,2% menos do que homens equivalentes. Em gestores, o rendimento médio feminino é de R$ 6.600 contra R$ 8.378 dos homens, uma diferença de 21,2%. O mCMOs não nasce em um vácuo. Nasce em um mercado que simultaneamente celebra e penaliza suas melhores profissionais.
O momento não poderia ser mais propício. O relatório Global Gender Gap 2025 do Fórum Econômico Mundial calcula que a lacuna global de gênero está 68,8% fechada. O progresso foi de apenas 0,3 ponto percentual no último ano. Na dimensão de participação econômica e oportunidade, o número cai para 61%. A projeção: mais de um século para a paridade plena.
Globalmente, segundo o LinkedIn Economic Graph, mulheres representam 43,4% da força de trabalho total mas ocupam apenas 30,6% dos cargos de liderança. E o dado mais preocupante: após crescer cerca de 1% ao ano entre 2016 e 2022, a taxa de contratação de mulheres para posições de liderança estacionou — ou regrediu — em diversas economias avançadas. A chamada "policrise" empurra corporações de volta a comportamentos conservadores de contratação, privilegiando redes majoritariamente masculinas.
É nesse contexto que um portal como o mCMOs deixa de ser apenas um veículo editorial e passa a funcionar como infraestrutura de visibilidade. Quem não é vista, não é promovida. Quem não é promovida, não tem salário equivalente. Quem não tem salário equivalente, não tem capital financeiro para empreender ou capital social para o conselho. O ciclo se fecha — a menos que seja interrompido por dados, narrativa e rede.
O mCMOs se estrutura em cinco frentes: o portal editorial com newsletter; uma comunidade de networking executivo com eventos exclusivos para executivas; pesquisas e relatórios de mercado originais (como o estudo Future of Women in Marketing); e programas de formação de novas lideranças. A linha editorial contempla liderança, estratégia, futuro do marketing, cultura, carreira e martech.
A aposta em pesquisa própria é estratégica. O ecossistema de liderança feminina no Brasil carece de dados granulares e atualizados — a maioria dos benchmarks relevantes vem de institutos internacionais ou de levantamentos pontuais. Preencher essa lacuna com dados originais sobre o perfil, trajetória e desafios das CMOs brasileiras é, possivelmente, a contribuição mais duradoura que o portal pode fazer.
"O teto de vidro foi quebrado para mulheres brancas no marketing. Para mulheres negras, ele permanece sólido, mesmo numa função voltada para consumidores cada vez mais diversos."
A permanência média dos CMOs nas 100 maiores anunciantes dos EUA estabilizou-se em 4,2 anos, quase equiparando-se à média geral do C-Suite (4,6 anos), segundo a Spencer Stuart. O estigma do "Career Might be Over" está sendo substituído por um novo perfil: a executiva tech-savvy, que responde por orçamentos de tecnologia que cooperam com os da área de TI, que usa IA para hiper-segmentação e criação de conteúdo dinâmico, e que traz uma preocupação adicional com ética algorítmica.
É essa profissional que o mCMOs se propõe a cobrir e a conectar. Se conseguir fazer isso com o rigor analítico que o tema exige e com a amplitude interseccional que a realidade brasileira demanda, terá construído algo que vai além de um portal: uma infraestrutura de poder para quem ainda está construindo o seu.
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